Tão sua.

01/20/2011

Hoje você vai chegar em casa e olhar assustado para toda a bagunça do meu quarto, e enquanto eu vou até a cozinha pegar um copo d’água, você vai guardar todas as minhas canetinhas no porta-lápis, dobrar todas as minhas roupas e enfileirar todos os meus esmaltes que estavam jogados. É claro que sou um furacão tirando tudo dos armários e derrubando as coisas no chão, mas de certo modo eu me delicio deixando as coisas milimetricamente bagunçadas para que você dê seus surtos cotidianos e coloque-as no lugar.

A escova de cabelos vai na gaveta de cima, as sapatilhas e os tênis acabam juntos, os livros que eu já li estão fora de ordem, os cremes não cabem mais na gaveta, minha mochila nunca fica junto com as bolsas, o mouse fica do lado esquerdo do teclado e as decotapes ainda estão aí para enfeitar, mesmo depois de mordidas. Tantos detalhes que você mudou e hoje eu até gosto mais assim, porque consigo acompanhar cada rastro seu desenhado em pequenas partes do meu quarto.

Existe todo um jeito seu de organizar as minhas coisas, ajustar cada detalhe, empilhar meus livros, encontrar um espaço para as bugigangas que eu cismo em colecionar (e esquecer em uma semana). Para cada pedacinho do meu quarto você cria uma estratégia. Ao menos uma vez por semana eu saio da cozinha e lá está você, com carinha de satisfeito e o quarto impecável, todo à sua maneira.

Agora os copos vão ficar jogados criando formigas no canto do meu computador, meus esmaltes vão se acumular ao lado do telefone e as canetinhas vão ficar abertas até secarem, uma a uma. Os cremes vão ficar espalhados pelo quarto e eu nunca mais vou encontrar meu controle remoto, algo que já está acontecendo de antemão. E mesmo que as coisas sejam enfim arrumadas, o que há de mais importante não vai estar aqui. Nada mais vai mostrar sua mania de organização, seu pavor de bagunça, suas mãos atrapalhadas mexendo nas coisinhas delicadas do meu quarto me fazendo sorrir.

As minhas sapatilhas não vão ficar fora das caixas, a lâmpada do banheiro vai queimar e eu nunca mais vou saber trocar, as embalagens não vão parar entre o armário e a parede, minhas roupas não vão ficar guardadas em armários invertidos. E eu vou sentir falta de procurar por horas alguma coisa que você saberia me responder em 30 segundos, porque foi você que guardou. Você tomou as rédeas. Você tomou conta de tudo. De mim.

Já não sei mais quando vou ver tudo arrumado dessa maneira tão ímpar. Tão sua.