O primeiro e o último

08/12/2013

Eu soube que não daria certo quando eu estava sentada na cama esperando aquele bastão branco definir qual seria o destino da minha vida para sempre e ele não parava de balançar na cadeira do computador enquanto descia freneticamente a tela com aquele mouse velho e barulhento. Não prestava a atenção em nada, é claro, mas continuava ali, estático, suando frio enquanto eu esperava a resposta que sairia da minha própria boca. Mesmo que a história fosse nossa.

O ponteiro do meu relógio fazia um tic-tac lento, tão devagar que me fazia sentir que a qualquer segundo eu iria desmaiar e perder a mudança de cores nos tracinhos que poderiam aparecer ali. Perder o instante que mudaria tudo.

Nesses minutos, todas as promessas de mudança passaram pela minha cabeça. Se eu não me sentia segura de estar ao lado dele naquele instante tão importante da minha vida, como estava com planos de passar ela inteira ali? Não era possível. Se tudo desse certo – e naquele momento o resultado precisava dar negativo para que isso acontecesse – eu mudaria de vida amanhã mesmo. Pegar as roupas do meu armário e arrastar para dentro da mala de viagem que compramos na Espanha e voltar para a casa da minha mãe. Não quero nada, só paz. Só alguém ao meu lado que eu possa dar a mão sem medo e ainda conseguir sorrir mesmo em momentos como esse. Sorrir de mãos dadas era tudo que eu queria ali.

No fundo eu queria que o resultado acabasse no positivo, porque meu instinto materno chegou a 120km/h ao pensar que em último caso eu poderia tira-lo de mim. Isso não foi uma opção cogitada nas últimas duas semanas, mas eu sabia que ele só pensava nos gastos com a cirurgia, caso fosse realmente necessário. E isso me enjoava, me dava medo. Dele e da situação que me coloquei ao lado de um homem como ele. No fim, não me preocupei, já que não faria isso nem que precisasse estar sozinha nessa decisão. E eu estive.

Minha mão segurava aquele aparelhinho com um misto de medo e insegurança, tremendo sem parar e firmando as pontas dos dedos nos cantos para nada interferir no resultado. Eu me lembro da textura das roupas de cama que eu estava sentada, um tecido grosso com flores amarelas feitas em linha que pareciam ter vindo do brechó que eu costumava fazer compras. Aquele quarto era frio e sem cor, apesar de familiar. Eu nunca estive por muito tempo nos outros cômodos dali e não fazia questão, já que nossos momentos eram todos passados um ao lado do outro ali, sentados naquela cama vendo um filme, curtindo um ao outro enquanto discutíamos sem gritar, para não acordar quem mais estivesse na casa. Eu amava aquele cara. Mas agora as prioridades eram outras.

Quando as cores começaram a mudar no pequeno bastão branco, meu coração parou. Como num filme, eu comecei a ver tudo ao meu redor em câmera lenta. Ele rodando para a direita e para a esquerda, mexendo os pés no ar enquanto os fios de cabelo balançavam para os lados opostos. O relógio que quase não se movimentava, mas me ensurdecia a cada movida de ponteiro. O barulho da rua, com os ônibus passando pela janela no meio da tarde enquanto os cachorros do vizinho latiam na mesma velocidade que o tic-tac do relógio de pulso que herdei da minha mãe me deixavam tonta. Piscava devagar. Eu tenho certeza que meu coração parou por alguns segundos naquela tarde.

Foi aí que o segundo risco apareceu. Bem nítido, sem dúvidas do resultado. Ali, estática, eu passei as próximas 12 horas olhando sem parar para a dupla de tracinhos que mudou a minha vida. Ou pelo menos foi o tempo que eu senti passar naquele momento. Minha cabeça girava entre roupinhas de bebê, o preço dos móveis e o quanto os próximos nove meses seriam os mais fantásticos da minha vida. Um misto de alegria sem fim, medo, insegurança e raiva dele, que sequer virou para olhar enquanto eu respirava pausadamente e derrubava as primeiras lágrimas dos  olhos. Ali eu já sabia o destino do nosso relacionamento. Para eu e ele, o fim. Para eu e você, o começo. O início de uma vida inteira ao seu lado.

Esse foi o último dia que vi seu pai, filho.