O dia de sempre

08/21/2013

Acordou atrasada como sempre.
O dia estava quente e o sol já batia na janela.
Mesmo assim, não foi suficiente para que ela desligasse o despertador.
Levantou, já conformada que perderia a hora.
Tomou café da manhã, um banho rápido e antes de secar o cabelo abriu o armário.
Perdeu dez minutos olhando os cabides e gavetas.
Não tinha roupa pra vestir.
Foi até o banheiro e secou o cabelo de qualquer jeito.
Escolher roupas no calor é uma porcaria, pensou.
Recomeçou a busca no armário.
Calcinha, sutiã, ok.
Entre um vestido e outro, encontrou uma saia azul marinho.
Vestiu.
Colocou uma camisetinha velha vermelha por cima e prendeu parte da blusa para dentro da saia.
Se olhou no espelho e gostou.
Sorriu aliviada e, saindo do quarto, voltou para o espelho.
Conferiu o tamanho da saia.
Fez movimentos bizarros para ver como a saia se mexia.
Parou na frente do armário.
Procurou pela calça jeans azul.
Estava na lavanderia.
Reclamou em voz baixa da sua incompetência como dona de casa.
O sol já aquecia todo o quarto.
Sentou na cama reclamando que não podia usar chinelos no trabalho.
Ou trabalhar de casa.
Ainda de saia azul marinho, procurou no armário alguma calça qualquer.
Encontrou uma preta que não usava há mais de um ano.
Trocou a saia pela calça.
A camisetinha vermelha combinou, mas era muito curta.
Se olhou de costas e reclamou do próprio corpo.
Uma gota de suor começava a se formar na sua nuca.
Reclamou de não poder andar de saia no ônibus.
Odiou aquele cara que colocou a mão na sua perna no dia anterior.
Quase mergulhou na gaveta em busca de uma camiseta mais longa.
Precisava esconder aquela bunda.
Jogou meia dúzia de blusas na cama e puxou uma qualquer.
Já estava mais atrasada que o normal.
Uma regata verde.
Trocou de sutiã para não aparecer.
Conferiu a roupa no espelho.
Conferiu a bunda na calça, já coberta pela regata.
Não era bem o que ela tinha imaginado.
Mas tudo bem.
Escolheu uma sapatilha qualquer.
Separou uma blusa de frio para usar de noite.
Uma blusa de frio comprida, que fechasse o peito e cobrisse a bunda.
Penteou o cabelo, passou meia dúzia de produtos no rosto e saiu.
No espelho do elevador, conferiu se a maquiagem não chamava muita atenção.
Tirou um pouco do batom rosa que tinha passado.
Saiu do elevador e cruzou com um morador novo.
Ele segurou a porta para ela.
Ela sorriu e saiu, conferindo no espelho do hall se ele estava olhando para sua bunda.
Não estava.
Sorriu aliviada.
Colocou os pés para fora do prédio e subiu a rua.
Esperava o ônibus na frente de um bar.
Procurou na bolsa o Bilhete Único.
Tinha esquecido em casa.
Abriu a carteira.
Um senhor de 60 anos assoviou.
Ela olhou, desatenta, achando que tinha deixado cair alguma coisa.
Ele piscou e deu um sorriso safado.
Ela olhou feio.
Tremeu um pouco as mãos de raiva.
Abaixou a cabeça.
Continuou procurando dinheiro na carteira.