O cabeçalho

08/19/2013

Meu interesse por cartas vem de pequena, quando escrevia folhas e folhas de fichário para minhas amigas contando cada detalhe do meu dia, meus sonhos, minha nova paixão platônica e dando opinião sobre qualquer outro assunto. Todos os dias nós trocávamos cartas com banalidades tão importantes para meninas de onze anos que acabavam no fundo da gaveta de roupas e se perdiam em meio a tantas outras importâncias a dizer.

A paixão continuou crescendo ao longo do tempo e foi parar nas histórias contados através de cartas. Aquelas que eram enviadas antigamente e que, juntas, contam histórias de amor, compartilham descobertas da ciência ou delatam uma traição. São contadas pelos olhos de quem as viveu na pele, sentindo o que transcreviam para o papel.  São cartas que detalham sentimentos num monólogo sem fim, sem pensar duas vezes ou interromper a hora de derramar cada pedacinho de oscilação que passa pelo peito.

São enviadas pelo correio, com selos e oceanos de distância. Até chegar ao destino, esteja ele a passos ou kilometros, o que se mantém é o sentimento eternizado no papel. Cartas são brigas iniciadas no cabeçalho e terminadas no ponto final, que expressam tudo que precisa ser vomitado para fora de uma vez só. Cartas contam histórias que mal contém virgulas, compartilhando a ansiedade do escritor na letra que marca o papel  para sempre.

São tristezas demonstradas com borrões de caneta molhados por lágrimas. Alegrias expressadas por palavras destacadas e exclamações repetidas. Nas cartas, conseguimos desenlaçar nossa alegria em centenas de letrinhas e pequenas reações do corpo, transmitindo o frio na barriga para o destinatário como se fosse um momento vivido ali, entre os dois.

As palavras mantém um sentimento para sempre imóvel, intacto. Detalham as nuances que a história provoca no corpo e no coração. As imagens são decifradas através de nossas próprias referências, mas palavras contém detalhes e momentos individuais de cada remetente, que no futuro são passados para seja quem for o destinatário. O nó na garganta, os olhos embaçados com as lágrimas que custavam a cair são detalhadas minuciosamente por letras combinadas em frases completas.
O enjoo que veio aos poucos enquanto o diálogo se seguia, o grito no peito que saiu em silêncio enquanto virava as costas e saia pela porta de madeira recém lustrada e a sensação de vazio que aquele perfume espalhado pela sala te dá até hoje.

Palavras são explosões de sensações que não precisam de ponto final, sejam combinadas ou soltas nas folhas perdidas de uma carta que repete, enquanto olha para a parede do quarto, o quanto aquele sentimento é merecedor de estar preso para sempre no papel.

Cartas são histórias contadas por um só olhar, que compartilham detalhes e nos fazem entrar na pele do escritor como se fossemos nós mesmos. Nas cartas são escritos os mais tristes e felizes monólogos de todos os tempos. Nas cartas são escritas as mensagens mais honestas, às vezes até ingênuas. Sem debates, sem interceptações. Ali, no papel em branco, é escrito o que vem direto do coração e da mente, seguidos das mãos que eternizam o vento gelado que passa pela nuca no papel.

São nas cartas que despejamos nossos sentimentos e fazemos com que o destinatário sinta o que correu pelo nosso corpo naquele exato momento eternizado pela caneta nas folhas de rascunho.