Desfoque luminoso

08/09/2013

Tinha os olhos vidrados na janela da sala. Todas aquelas luzes piscando durante a noite, tão distantes, mostravam a imensidão da cidade tão movimentada que corria por seus olhos como se estivesse indo embora as pressas. Ela só observava, maravilhada. Tão nova. Tanto ela quanto a sensação de quando estamos explorando uma nova vida feita especialmente para você. Seduz enquanto nos encurrala nas ruas sem saída.

A madrugada chegava enquanto ela continuava mergulhada naquele copo de rum sem gelo. Cada luzinha que acendia, apagava e mudava de cor se tornava uma nova história.

A festa no apartamento ao lado, com as luzes piscando e a música alta passando leve em seus ouvidos, quase como se ela pudesse sentir a vibração chegando e arrepiando seus braços que se apoiavam nos próprios joelhos magros. O carro seguido de dois taxis que atravessou a avenida acima do limite de velocidade enquanto levava um grupo de amigos para ninguém sabe onde, e quando os pneus cantaram ela sentiu que poderia simplesmente pegar um taxi e fazer o mesmo e, quem sabe, esbarrar novos amigos, encontrar novos lugares. Mas preferiu observar o grupo de garotas que atravessou a rua dançando com um guarda chuva amarelo, mesmo em pleno verão, e se encantou com a possibilidade que elas podem se tornar suas amigas num futuro próximo.

O mundo estava em festa.
O coração dela também.

Sorria enquanto circulava as unhas no copo de vidro fazendo um barulhinho ritmado. A certeza que a cidade está vivendo, piscando e dançando é reconfortante. É só dar dois, três passos e um mundo novo se abre e se transforma em nossa frente.

É como se cada luz acesa pela cidade fosse um portal. Um portal para um mundo inteiramente novo. Em um apartamento, numa festa, nas lanternas de um carro, na casa de novos amigos, flertando com possíveis amores.

As luzes assistiam televisão deitadas na sala. Ouviam o teclar de um computador no escuro do quarto. Dançavam ao som de uma música desconhecida na festa mal organizada. Cada luz trazia um conforto diferente. Era uma vida ali. Eram várias. Vivendo, dançando, criando a alma daquela cidade tão grande, solitária e, ao mesmo tempo, acolhedora. Reconfortante. Ela conseguia sentir o cheiro do movimento daquele lugar.

Observava tudo, feliz. Seus olhos mal piscavam, esperançosos, enquanto sorria de canto da boca. Estava ali, sentada na beira do sofá, ela e sua bebida, admirando todo aquele desconhecido. Aquele movimento. Aquelas vidas.

Torceu para alguém estar criando uma história para a luz que saía de sua janela e se espalhava pela cidade. Ela sorriu de canto de boca quando pensou nessa ideia, tomou o último gole e sorriu para a escuridão cheia de pontinhos coloridos que se acendiam e apagavam. Já fazia parte de tudo isso.