A meleca do Maurício

08/27/2013

Eu nunca fui uma criança popular. Era aquele tipo com só alguns amigos e a vontade de pertencer a um grupo e ser aceita pelas pessoas que eram ditas como “legais” no colégio, igual qualquer outra criança tonta. Nunca funcionou e depois acabei descobrindo que todas eram babacas, então tudo bem.
Nessa época, eu e muitas outras crianças sofríamos muito bullying. Fui chamada de “cabeluda” por anos porque tinha o cabelo comprido e com bastante volume. Não volumoso em cachos maravilhosos, mas um volumoso liso, que fazia minha cabeça parecer uma bolinha de tênis com – muito – cabelo envolta.

Foi nessa época, quando eu tinha mais ou menos uns oito anos, que conheci o Maurício. Um menino gordinho, de cabelos enrolados e olhos verdes, filho de uma mulher que trabalhava na escola. Como toda criança, o Maurício não perdia a oportunidade de fazer piadas com traumas de outras pessoas, inclusive os meus. Só que o Maurício também sofria bullying. Por mim, pelos meus poucos amiguinhos e por todas as outras pessoas da nossa idade.

Um dia viram ele tirando meleca do nariz e comendo, e assim surgiu a lendária Meleca do Maurício. Acho que foi a catota que ele mais se arrependeu na vida, porque depois daquele momento ele não podia encostar em absolutamente mais ninguém. Não podia pedir um lápis emprestado. Sentar ao lado de alguém no recreio. Fazer dupla na hora da prova. Pedir cola escondido.
A vida do Maurício virou um inferno por causa de uma “saborosa” meleca de nariz que ele sequer sabia que era o motivo original.
Qualquer movimento que o Maurício fazia que encostasse em alguém, as pessoas a sua volta começavam a gritar UUHHH PEGOU MELECA DO MAURÍCIO! e corriam.

O dia inteiro. Todos os dias. O ano inteiro. Talvez até mais do que por um ano.

E assim vivia o Maurício.

O negócio era tão pesado que ele acabava tentando entrar na brincadeira para se enturmar e corria atrás das pessoas que tentavam fugir dele, gritando que ia passar meleca para elas. Pra fazer parte da brincadeira também, sabe? Para tentarem rir com ele, e não só dele.

Eu me lembro da fase que os lugares na sala foram reorganizados e o Maurício sentou na carteira atrás de mim. Era o fim da minha chance de me aceitarem entre os populares. Ele, para se enturmar, ficava ameaçando pegar no meu cabelo. Na tentativa de manter minha posição, eu reclamava, mudava de carteira, levantava para jogar alguma coisa no lixo entre outras estratégias para fugir da meleca do Maurício. E assim foi por semanas.

Um dia eu cansei. Cansei de brincar de ter nojo do menino que ninguém nem explicava porque tinha meleca. Deixei ele encostar no meu cabelo. E todo mundo da sala parou de conversar para olhar e rir daquela situação. Alguns dias depois, já convencida da minha total exclusão social até a formatura, comecei a conversar com ele como uma pessoa normal. Não o Maurício, aquele da meleca.

Aí inventaram boatos que o Maurício estava apaixonado por mim. E, no recreio, adivinha só do que começaram a me chamar? A namorada do Maurício, é claro. Eu, em plena infância, tentando me tornar sociável para arranjar mais amigos na escola, quis morrer. Não ser amiga dos populares tudo bem, mas a namorada do Maurício? Aí não dava.
A cabeluda e o menino da meleca, que casal fantástico.
Tipo, NINGUÉM queria ser a namorada do cara que passava meleca para os outros, sabe?

Minha amizade com o Maurício não deve ter durado uma semana. E lá estava eu de novo, fugindo da meleca e me enturmando com o resto da sala.
No fim das contas, acho que o Mauricio mudou de colégio ou de turno. Mal sei que fim levou. Mas o bullying com ele ficou até hoje na minha cabeça.

Há alguns anos eu passei pelo Maurício na fila do ônibus. Acho que ele nem lembra da minha existência, mas fiquei uns 10 segundos parada olhando meio escondida pra ele.
(Por um segundo até passou pela minha cabeça um resquício da escola com “Será que ele ainda come melecalaboca sua idiota”)

Em seguida eu morri de vergonha por todas as crianças que zuavam o Maurício juntas. De ver que o Maurício tá ali, com a minha idade. E se eu, que fui MUITO zuada, mas bem menos que ele, tenho complexos com meu cabelo até hoje, fico imaginando ele por ter meleca. Se hoje ele gasta parte do salário num psicólogo e em esponjas de banho, com certeza tenho culpa nessa história.

Maurício, se algum dia você ler isso aqui, saiba que estou arrependida de ter feito bullying com você na terceira série. De verdade. Espero que você tenha superado esse gosto por comer meleca de nariz.
Ass:. Cabeluda