A dúvida que tanto faz

09/02/2013

Os momentos que passamos juntos são muitos, mesmo com tão poucos encontros. A distância nos trouxe esse controle do amor que surgiu aos poucos, como quem não quer nada. Você estava fugindo de uma frustração criada por você mesmo, e eu estava sendo eu mesma, ignorando qualquer possibilidade de relacionamento pelos próximos dez anos.

Nosso encontro foi inusitado e não consegui mais tirar da minha cabeça seus olhos piscando sem parar enquanto conversávamos. Nós ainda nem estávamos próximos, você mal sabia escrever meu nome, mas eu já não me esquecia mais daqueles cílios enormes e do seu sorriso exagerado que eu viria a gostar tanto. Os dias se passaram e, coincidentemente ou não, eu apareci de novo no restaurante que você trabalhava. Gostei da comida, ué. Você me cumprimentou como uma cliente qualquer, mas quando estava voltando para a cozinha olhou para trás e deu uma piscadinha. Comemorei em silêncio. Ele lembrou!

Agora você já frequentava os mesmos bares que eu e sentávamos na mesma mesa. Só nós dois. Eu te contava sobre minha vida e de onde eu vim, você fazia monólogos sobre sua última frustração e mudança de vida. Acho que você sempre soube brincar. Não com as palavras, mas com os gestos e sorrisos. Você era péssimo com as palavras. Por isso eu deixava qualquer argumento pra lá enquanto você alisava minha mão com as pontas dos dedos.
Acho que isso acabou definindo um pouco a nossa história. Tivemos poucos encontros, todos intensos, cheios de paixão e juras de amor eterno, mesmo em silêncio olhando para o teto. Você sempre sumia por alguns dias e, de repente, me ligava louco de saudades querendo me ver. Quando eu quase parava de esperar uma ligação sua, você surgia por mensagem. Morrendo de saudades. Você sempre foi assim: vidrado em mim ou completamente distante. Nunca levei essa história muito a sério.

Foi então que você me levou para um passeio em uma praia pouco conhecida por aqui, perto o suficiente para estarmos de volta antes do anoitecer. Estávamos na praia namorando em frente ao por do sol como um casal apaixonado. Uma praia vazia é um dos lugares mais libertadores que se pode estar, você não cansava de repetir. Levantou correndo, pegou a mochila e tirou a câmera de lá de dentro. Lá vem mais uma sessão de fotos, pensei, um pouco aborrecida. Posicionou a câmera, correu até mim, me abraçou e fez juras de amor ao meu ouvido. Sorrio e fico sem graça. Você ajoelha, tira do bolso uma caixinha vermelha e abre: são dois anéis dourados.

O mundo gira em torno da minha cabeça como se tudo fosse desmoronar. A praia, a areia, aquelas pedras no canto, minha canga colorida estendida no chão e seu sorriso travado na mesma posição nos segundos que duraram horas. Nós só nos vimos algumas vezes! Como sei que estou apaixonada? Será que estou? Porque ele deve estar. Ele é tão lindo. Olha o tamanho desse sorriso meio desengonçado que ele me dá. Não consigo parar de sorrir de volta e meus olhos estão começando a encher de lágrimas. Isso deve significar alguma coisa.

Encosto em sua mão, tentando me desvencilhar da pequena caixinha de veludo que você carrega ali, sem sucesso. Ouço a camera fotografando automaticamente esse momento. Constrangedor. Mas só na minha cabeça. Pisco devagar e duas lágrimas grossas descem meu rosto. Você começa a ficar preocupado, solta uma das mãos do veludo e acaricia a palma da minha mão estendida. Daquele jeito que você fez na primeira vez que dormimos juntos. Perco o jeito e rio um pouco alto, meio trêmula. Já até esqueci qual era a pergunta original de toda aquela cena tão improvável. Termino a risada sem graça com um sim entre os lábios.

Um dia a gente vê o que faz.