Debbie Corrano
Quer conhecer, ler, ser e viver um milhão de coisas ao mesmo tempo.

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Enjoy the ride

03/15/2014

Na minha cabeça, não existe essa história de “largue tudo e vá fazer o que ama”. Até usar o termo “largar tudo”, pra mim, é uma grande desvalorização de todo o esforço das pessoas que estão buscando sua felicidade, seja um emprego melhor, abrir sua própria empresa, conhecer a Índia ou poder dormir até mais tarde todos os dias. Mudar, em qualquer aspecto, exige esforço, muito, muito trabalho, planejamento, noites mal dormidas, centenas de frustrações e, quem sabe, um punhado de sorte. É exatamente o contrário de jogar tudo para o alto e apenas fugir.

Eu acredito que, no fundo, todo mundo quer ser feliz. Todo mundo sempre quis ser feliz, desde que o mundo é mundo. E felicidade tem muito a ver com amor. E cada um ama uma coisa, de um jeito, com uma intensidade. O que me faz feliz pode não te interessar nem um pouco. É importante lembrar que nessa era dos workaholics, o trabalho não é a única coisa que poderia te fazer feliz ou a única que te faz mal. Ele é só uma parte, bem pequena, de quem você é. Você pode trabalhar 8 horas por dia em um escritório incrível na Faria Lima e ser feliz. Você pode trabalhar 12, 15 horas em uma redação de revista, acordando as 5 horas da manhã pra correr atrás de uma pauta e ser feliz. Você pode viajar o mundo trabalhando de qualquer lugar e ser feliz. Esses três exemplos, especificamente, são sonhos que eu já tive ou tenho, em alguma parte de mim. E eu, em algum momento, poderia ou posso vir a ser feliz encaixada em algum deles. E o trabalho que eu vou escolher faz parte disso, mas não é a chave principal.

Não é um trabalho que nos faz feliz ou infeliz, somos nós. Acredito ser essencial correr atrás da própria felicidade, mas assim como ela pode estar em uma montanha da Escócia, ela também pode estar na mesa da sua sala. Muitas vezes são pequenas mudanças que você pode fazer na sua vida que irão te tornar mais feliz, não só aquele sonho utópico e distante. Você pode e deve correr atrás dele mas, enquanto isso, seja feliz no caminho também. Ninguém pula etapas, larga tudo e vai ser feliz. Felicidade está em constante movimento, e você precisa persegui-la todos os dias. Enjoy the ride.

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2013 foi um ano atípico

12/28/2013

Muito do que eu sonhava mudou de tamanho. Muita coisa sumiu e muita coisa cresceu. Cresceu tanto que eu consegui agarrar com força vários desejos, muitos que nem sabia que tinha.

Não foi um ano de viagens, o que me deixaria muito chateada se fossem só mais 365 dias da mesma coisa, sem nem histórias de outros lugares para contar. Mas dessa vez foi diferente. Em 2013, eu pensei mais no que eu realmente quero levar para a vida, coloquei em um cronograma e criei passos para conquistar cada uma. Foi o ano que precisei entender como lidar com minhas dúvidas, sentimentos e preocupações enquanto aprendia a trabalhar dentro de casa.
Precisei aprender a lidar com minhas crises de ansiedade e desespero, dando passos de iniciante e de profissional ao mesmo tempo no empreendedorismo e nos meus trabalhos que seguem caminhos novos todos os dias. Conquistei um ano profissional incrível com a liberdade de ser freelancer, que também me trouxe um ano pessoal mais livre e feliz. Acho que a palavra que resume meu 2013, apesar de tudo, é liberdade. Ou o processo de se chegar até ela.

Em 2013 eu não explorei o mundo além de São Paulo, mas conheci detalhes de mim que nunca tinha visto antes. Meus anseios, meus medos ao dar um grande passo e resolver problemas que nunca tive, como lidar com meus sonhos cada dia mais próximos e, principalmente, aprender a enxergar minha própria capacidade. Eu sempre fui uma pessoa com a auto estima muito baixa e nada confiante, e esse ano eu consegui trabalhar bastante esse ponto. Aprendi a enxergar valor nas minhas ideias, nos meus desejos e no meu trabalho, sem deixar de ser exigente com cada detalhe. 2013 foi ano de acordar todos os dias com o objetivo de ser melhor. Melhor para mim mesma e para as pessoas que eu amo. Aprender a me olhar com mais carinho no espelho, a me entender melhor para entender o mundo a minha volta e a enxergar mais qualidades do que defeito em muitas das coisas que eu faço. E isso me faz mais feliz, mais confiante e mais livre. É um processo lento, mas vem me mudando muito.

Esse ano foi de muito tempo em casa na frente de um computador trabalhando como louca com coisas que eu acreditava muito – e algumas nem tanto. Foi de passar muito tempo sozinha nessa casa enorme até o universo conspirar para o meu namorado praticamente vir morar aqui comigo e colocarmos, ainda mais, nossa vida em um só eixo. Foi o ano de curtir mais meus cachorros, meus amigos e minha família, dar mais valor e aproveitar o meu tempo correndo atrás do que eu quero. De lutar contra a procrastinação, que ainda me puxa para trás. Foi um ano de entender que não existem sonhos absurdos, só precisamos lutar por eles. Foi um ano de querer mais. Querer mais porque eu posso mais, e foi justamente isso que 2013 me mostrou. Eu posso conquistar o mundo, só que preciso acreditar.

E é essa minha grande resolução de ano novo: em 2014, eu quero realizar mais. Quero querer mais. E quando você quer e corre atrás, o mundo conspira ao seu favor. Tá vendo? Isso é uma coisa que eu aprendi esse ano. Não é só querer, é correr atrás e acreditar que vai dar certo. Quero lutar mais por meus sonhos e ter ainda mais deles para realizar. Em 2014, eu quero lembrar todos os dias que eu posso mais. Eu só preciso acreditar em mim.

Que venha 2014 e os próximos 365 dias para realizar sonhos. <3

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A dúvida que tanto faz

09/02/2013

Os momentos que passamos juntos são muitos, mesmo com tão poucos encontros. A distância nos trouxe esse controle do amor que surgiu aos poucos, como quem não quer nada. Você estava fugindo de uma frustração criada por você mesmo, e eu estava sendo eu mesma, ignorando qualquer possibilidade de relacionamento pelos próximos dez anos.

Nosso encontro foi inusitado e não consegui mais tirar da minha cabeça seus olhos piscando sem parar enquanto conversávamos. Nós ainda nem estávamos próximos, você mal sabia escrever meu nome, mas eu já não me esquecia mais daqueles cílios enormes e do seu sorriso exagerado que eu viria a gostar tanto. Os dias se passaram e, coincidentemente ou não, eu apareci de novo no restaurante que você trabalhava. Gostei da comida, ué. Você me cumprimentou como uma cliente qualquer, mas quando estava voltando para a cozinha olhou para trás e deu uma piscadinha. Comemorei em silêncio. Ele lembrou!

Agora você já frequentava os mesmos bares que eu e sentávamos na mesma mesa. Só nós dois. Eu te contava sobre minha vida e de onde eu vim, você fazia monólogos sobre sua última frustração e mudança de vida. Acho que você sempre soube brincar. Não com as palavras, mas com os gestos e sorrisos. Você era péssimo com as palavras. Por isso eu deixava qualquer argumento pra lá enquanto você alisava minha mão com as pontas dos dedos.
Acho que isso acabou definindo um pouco a nossa história. Tivemos poucos encontros, todos intensos, cheios de paixão e juras de amor eterno, mesmo em silêncio olhando para o teto. Você sempre sumia por alguns dias e, de repente, me ligava louco de saudades querendo me ver. Quando eu quase parava de esperar uma ligação sua, você surgia por mensagem. Morrendo de saudades. Você sempre foi assim: vidrado em mim ou completamente distante. Nunca levei essa história muito a sério.

Foi então que você me levou para um passeio em uma praia pouco conhecida por aqui, perto o suficiente para estarmos de volta antes do anoitecer. Estávamos na praia namorando em frente ao por do sol como um casal apaixonado. Uma praia vazia é um dos lugares mais libertadores que se pode estar, você não cansava de repetir. Levantou correndo, pegou a mochila e tirou a câmera de lá de dentro. Lá vem mais uma sessão de fotos, pensei, um pouco aborrecida. Posicionou a câmera, correu até mim, me abraçou e fez juras de amor ao meu ouvido. Sorrio e fico sem graça. Você ajoelha, tira do bolso uma caixinha vermelha e abre: são dois anéis dourados.

O mundo gira em torno da minha cabeça como se tudo fosse desmoronar. A praia, a areia, aquelas pedras no canto, minha canga colorida estendida no chão e seu sorriso travado na mesma posição nos segundos que duraram horas. Nós só nos vimos algumas vezes! Como sei que estou apaixonada? Será que estou? Porque ele deve estar. Ele é tão lindo. Olha o tamanho desse sorriso meio desengonçado que ele me dá. Não consigo parar de sorrir de volta e meus olhos estão começando a encher de lágrimas. Isso deve significar alguma coisa.

Encosto em sua mão, tentando me desvencilhar da pequena caixinha de veludo que você carrega ali, sem sucesso. Ouço a camera fotografando automaticamente esse momento. Constrangedor. Mas só na minha cabeça. Pisco devagar e duas lágrimas grossas descem meu rosto. Você começa a ficar preocupado, solta uma das mãos do veludo e acaricia a palma da minha mão estendida. Daquele jeito que você fez na primeira vez que dormimos juntos. Perco o jeito e rio um pouco alto, meio trêmula. Já até esqueci qual era a pergunta original de toda aquela cena tão improvável. Termino a risada sem graça com um sim entre os lábios.

Um dia a gente vê o que faz.

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A meleca do Maurício

08/27/2013

Eu nunca fui uma criança popular. Era aquele tipo com só alguns amigos e a vontade de pertencer a um grupo e ser aceita pelas pessoas que eram ditas como “legais” no colégio, igual qualquer outra criança tonta. Nunca funcionou e depois acabei descobrindo que todas eram babacas, então tudo bem.
Nessa época, eu e muitas outras crianças sofríamos muito bullying. Fui chamada de “cabeluda” por anos porque tinha o cabelo comprido e com bastante volume. Não volumoso em cachos maravilhosos, mas um volumoso liso, que fazia minha cabeça parecer uma bolinha de tênis com – muito – cabelo envolta.

Foi nessa época, quando eu tinha mais ou menos uns oito anos, que conheci o Maurício. Um menino gordinho, de cabelos enrolados e olhos verdes, filho de uma mulher que trabalhava na escola. Como toda criança, o Maurício não perdia a oportunidade de fazer piadas com traumas de outras pessoas, inclusive os meus. Só que o Maurício também sofria bullying. Por mim, pelos meus poucos amiguinhos e por todas as outras pessoas da nossa idade.

Um dia viram ele tirando meleca do nariz e comendo, e assim surgiu a lendária Meleca do Maurício. Acho que foi a catota que ele mais se arrependeu na vida, porque depois daquele momento ele não podia encostar em absolutamente mais ninguém. Não podia pedir um lápis emprestado. Sentar ao lado de alguém no recreio. Fazer dupla na hora da prova. Pedir cola escondido.
A vida do Maurício virou um inferno por causa de uma “saborosa” meleca de nariz que ele sequer sabia que era o motivo original.
Qualquer movimento que o Maurício fazia que encostasse em alguém, as pessoas a sua volta começavam a gritar UUHHH PEGOU MELECA DO MAURÍCIO! e corriam.

O dia inteiro. Todos os dias. O ano inteiro. Talvez até mais do que por um ano.

E assim vivia o Maurício.

O negócio era tão pesado que ele acabava tentando entrar na brincadeira para se enturmar e corria atrás das pessoas que tentavam fugir dele, gritando que ia passar meleca para elas. Pra fazer parte da brincadeira também, sabe? Para tentarem rir com ele, e não só dele.

Eu me lembro da fase que os lugares na sala foram reorganizados e o Maurício sentou na carteira atrás de mim. Era o fim da minha chance de me aceitarem entre os populares. Ele, para se enturmar, ficava ameaçando pegar no meu cabelo. Na tentativa de manter minha posição, eu reclamava, mudava de carteira, levantava para jogar alguma coisa no lixo entre outras estratégias para fugir da meleca do Maurício. E assim foi por semanas.

Um dia eu cansei. Cansei de brincar de ter nojo do menino que ninguém nem explicava porque tinha meleca. Deixei ele encostar no meu cabelo. E todo mundo da sala parou de conversar para olhar e rir daquela situação. Alguns dias depois, já convencida da minha total exclusão social até a formatura, comecei a conversar com ele como uma pessoa normal. Não o Maurício, aquele da meleca.

Aí inventaram boatos que o Maurício estava apaixonado por mim. E, no recreio, adivinha só do que começaram a me chamar? A namorada do Maurício, é claro. Eu, em plena infância, tentando me tornar sociável para arranjar mais amigos na escola, quis morrer. Não ser amiga dos populares tudo bem, mas a namorada do Maurício? Aí não dava.
A cabeluda e o menino da meleca, que casal fantástico.
Tipo, NINGUÉM queria ser a namorada do cara que passava meleca para os outros, sabe?

Minha amizade com o Maurício não deve ter durado uma semana. E lá estava eu de novo, fugindo da meleca e me enturmando com o resto da sala.
No fim das contas, acho que o Mauricio mudou de colégio ou de turno. Mal sei que fim levou. Mas o bullying com ele ficou até hoje na minha cabeça.

Há alguns anos eu passei pelo Maurício na fila do ônibus. Acho que ele nem lembra da minha existência, mas fiquei uns 10 segundos parada olhando meio escondida pra ele.
(Por um segundo até passou pela minha cabeça um resquício da escola com “Será que ele ainda come melecalaboca sua idiota”)

Em seguida eu morri de vergonha por todas as crianças que zuavam o Maurício juntas. De ver que o Maurício tá ali, com a minha idade. E se eu, que fui MUITO zuada, mas bem menos que ele, tenho complexos com meu cabelo até hoje, fico imaginando ele por ter meleca. Se hoje ele gasta parte do salário num psicólogo e em esponjas de banho, com certeza tenho culpa nessa história.

Maurício, se algum dia você ler isso aqui, saiba que estou arrependida de ter feito bullying com você na terceira série. De verdade. Espero que você tenha superado esse gosto por comer meleca de nariz.
Ass:. Cabeluda

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O dia de sempre

08/21/2013

Acordou atrasada como sempre.
O dia estava quente e o sol já batia na janela.
Mesmo assim, não foi suficiente para que ela desligasse o despertador.
Levantou, já conformada que perderia a hora.
Tomou café da manhã, um banho rápido e antes de secar o cabelo abriu o armário.
Perdeu dez minutos olhando os cabides e gavetas.
Não tinha roupa pra vestir.
Foi até o banheiro e secou o cabelo de qualquer jeito.
Escolher roupas no calor é uma porcaria, pensou.
Recomeçou a busca no armário.
Calcinha, sutiã, ok.
Entre um vestido e outro, encontrou uma saia azul marinho.
Vestiu.
Colocou uma camisetinha velha vermelha por cima e prendeu parte da blusa para dentro da saia.
Se olhou no espelho e gostou.
Sorriu aliviada e, saindo do quarto, voltou para o espelho.
Conferiu o tamanho da saia.
Fez movimentos bizarros para ver como a saia se mexia.
Parou na frente do armário.
Procurou pela calça jeans azul.
Estava na lavanderia.
Reclamou em voz baixa da sua incompetência como dona de casa.
O sol já aquecia todo o quarto.
Sentou na cama reclamando que não podia usar chinelos no trabalho.
Ou trabalhar de casa.
Ainda de saia azul marinho, procurou no armário alguma calça qualquer.
Encontrou uma preta que não usava há mais de um ano.
Trocou a saia pela calça.
A camisetinha vermelha combinou, mas era muito curta.
Se olhou de costas e reclamou do próprio corpo.
Uma gota de suor começava a se formar na sua nuca.
Reclamou de não poder andar de saia no ônibus.
Odiou aquele cara que colocou a mão na sua perna no dia anterior.
Quase mergulhou na gaveta em busca de uma camiseta mais longa.
Precisava esconder aquela bunda.
Jogou meia dúzia de blusas na cama e puxou uma qualquer.
Já estava mais atrasada que o normal.
Uma regata verde.
Trocou de sutiã para não aparecer.
Conferiu a roupa no espelho.
Conferiu a bunda na calça, já coberta pela regata.
Não era bem o que ela tinha imaginado.
Mas tudo bem.
Escolheu uma sapatilha qualquer.
Separou uma blusa de frio para usar de noite.
Uma blusa de frio comprida, que fechasse o peito e cobrisse a bunda.
Penteou o cabelo, passou meia dúzia de produtos no rosto e saiu.
No espelho do elevador, conferiu se a maquiagem não chamava muita atenção.
Tirou um pouco do batom rosa que tinha passado.
Saiu do elevador e cruzou com um morador novo.
Ele segurou a porta para ela.
Ela sorriu e saiu, conferindo no espelho do hall se ele estava olhando para sua bunda.
Não estava.
Sorriu aliviada.
Colocou os pés para fora do prédio e subiu a rua.
Esperava o ônibus na frente de um bar.
Procurou na bolsa o Bilhete Único.
Tinha esquecido em casa.
Abriu a carteira.
Um senhor de 60 anos assoviou.
Ela olhou, desatenta, achando que tinha deixado cair alguma coisa.
Ele piscou e deu um sorriso safado.
Ela olhou feio.
Tremeu um pouco as mãos de raiva.
Abaixou a cabeça.
Continuou procurando dinheiro na carteira.

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O cabeçalho

08/19/2013

Meu interesse por cartas vem de pequena, quando escrevia folhas e folhas de fichário para minhas amigas contando cada detalhe do meu dia, meus sonhos, minha nova paixão platônica e dando opinião sobre qualquer outro assunto. Todos os dias nós trocávamos cartas com banalidades tão importantes para meninas de onze anos que acabavam no fundo da gaveta de roupas e se perdiam em meio a tantas outras importâncias a dizer.

A paixão continuou crescendo ao longo do tempo e foi parar nas histórias contados através de cartas. Aquelas que eram enviadas antigamente e que, juntas, contam histórias de amor, compartilham descobertas da ciência ou delatam uma traição. São contadas pelos olhos de quem as viveu na pele, sentindo o que transcreviam para o papel.  São cartas que detalham sentimentos num monólogo sem fim, sem pensar duas vezes ou interromper a hora de derramar cada pedacinho de oscilação que passa pelo peito.

São enviadas pelo correio, com selos e oceanos de distância. Até chegar ao destino, esteja ele a passos ou kilometros, o que se mantém é o sentimento eternizado no papel. Cartas são brigas iniciadas no cabeçalho e terminadas no ponto final, que expressam tudo que precisa ser vomitado para fora de uma vez só. Cartas contam histórias que mal contém virgulas, compartilhando a ansiedade do escritor na letra que marca o papel  para sempre.

São tristezas demonstradas com borrões de caneta molhados por lágrimas. Alegrias expressadas por palavras destacadas e exclamações repetidas. Nas cartas, conseguimos desenlaçar nossa alegria em centenas de letrinhas e pequenas reações do corpo, transmitindo o frio na barriga para o destinatário como se fosse um momento vivido ali, entre os dois.

As palavras mantém um sentimento para sempre imóvel, intacto. Detalham as nuances que a história provoca no corpo e no coração. As imagens são decifradas através de nossas próprias referências, mas palavras contém detalhes e momentos individuais de cada remetente, que no futuro são passados para seja quem for o destinatário. O nó na garganta, os olhos embaçados com as lágrimas que custavam a cair são detalhadas minuciosamente por letras combinadas em frases completas.
O enjoo que veio aos poucos enquanto o diálogo se seguia, o grito no peito que saiu em silêncio enquanto virava as costas e saia pela porta de madeira recém lustrada e a sensação de vazio que aquele perfume espalhado pela sala te dá até hoje.

Palavras são explosões de sensações que não precisam de ponto final, sejam combinadas ou soltas nas folhas perdidas de uma carta que repete, enquanto olha para a parede do quarto, o quanto aquele sentimento é merecedor de estar preso para sempre no papel.

Cartas são histórias contadas por um só olhar, que compartilham detalhes e nos fazem entrar na pele do escritor como se fossemos nós mesmos. Nas cartas são escritos os mais tristes e felizes monólogos de todos os tempos. Nas cartas são escritas as mensagens mais honestas, às vezes até ingênuas. Sem debates, sem interceptações. Ali, no papel em branco, é escrito o que vem direto do coração e da mente, seguidos das mãos que eternizam o vento gelado que passa pela nuca no papel.

São nas cartas que despejamos nossos sentimentos e fazemos com que o destinatário sinta o que correu pelo nosso corpo naquele exato momento eternizado pela caneta nas folhas de rascunho.

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A saga do bigode

08/15/2013

Hoje vou contar uma bela história para vocês:
Meu pai é italiano, nasceu na Itália e veio pra cá quando era pequeno, no colo da minha avó. A vida toda eu ouvi que sou italiana, porque sou filha de um e OH MEU DEUS ITALIANA MAMMA MIA MANGIARE MANGIARE. Nunca entendi o que minha vó fala e vira e mexe meu pai – que sabe meia duzia de palavras em italiano – fica me ensinando uns palavrões. Só que este meu digníssimo pai nunca me registrou no Consulado Italiano aqui no Brasil – nem eu e nem os meus irmãos – e quando eu fui pesquisar como tirar a minha dupla cidadania, já tinha 18 anos e teria que pegar a fila igual qualquer outro parente de italiano (seja filho ou o tatatataraneto.). Ok, né?
Entrei no site do consulado e a fila estava com espera básica de MARROMENOS 10 anos. O outro jeito era ir até a Itália, morar na cidade que meu pai nasceu e gastar dez mil reais para fazer o processo. Só que meu pai nasceu em um lugar que tem 7 mil habitantes. Sete mil pessoas. Acho que tem mais pessoas morando nos quatro quarteirões ao meu redor.

E lá estava eu pensando em como ia viver na pequena cidade de ninguém-vai-saber-onde-é-e-nem-internet-deve-ter, porque apesar de tudo isso, eu estava determinada a usufruir dos benefícios da minha ascendência. Pesquisei por meses, desisti umas 10 vezes, mas continuei querendo a minha dupla cidadania.

Num dia qualquer lembrei que meu avô por parte de mãe nasceu em Portugal. Só meu avô, que também acabou no Brasil. Minha vó nasceu no Brás mesmo. Só que vish, imagina só? Nem ele nem a minha vó tinham registrado o casamento em Portugal, menos ainda o nascimento da minha mãe e eu não fazia ideia de onde estava a certidão de nascimento do meu avô…uma zona. Parecia mais difícil que a italiana, se é que isso era possível. Mas eu fui dar uma fuçada, né?

E aí eu descobri que o Consulado de Portugal é um lugar maravilhoso.
O site tem informações atualizadas, o layout é bonito (sério, o da Itália é ridículo), eles te informam direitinho por telefone e a cidadania sai ridiculamente rápido.
Agilizei os documentos e mesmo depois do meu pai me empacar DE NOVO com a certidão de nascimento dele (já que eu precisava de uma atual e só consigo pedir na cidade por CARTA, que vai de TREM, não tem rastreio nenhum e dizem que muitas vezes nem volta), enviei tudo que precisava por sedex na terça feira. Nessa terça feira agora. Hoje (hoje!!!) eles me mandaram um email (MEU DEUS! ELES USAM EMAILS! <3 <3 <3) me pedindo para agendar no site (meu deus! no site! o site é útil assim?!) uma visita ao Consulado para resolver os últimos detalhes, porque os documentos já foram aceitos. De ontem pra hoje. E em mais ou menos dois meses eu e minha mãe teremos a cidadania européia por vias portuguesas (ela já tem a italiana por atribuição, direto do meu pai, mas whatever). Falem o que quiser de lá, do meu sangue italiano, da minha quase falta de sangue português, façam piadas de padeiros, mas eu nunca estive lá e já amo Portugal.

Moral da história: NUNCA FIQUEI TÃO FELIZ DE SER MEIO BIGODUDA.

Brinks.

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O primeiro e o último

08/12/2013

Eu soube que não daria certo quando eu estava sentada na cama esperando aquele bastão branco definir qual seria o destino da minha vida para sempre e ele não parava de balançar na cadeira do computador enquanto descia freneticamente a tela com aquele mouse velho e barulhento. Não prestava a atenção em nada, é claro, mas continuava ali, estático, suando frio enquanto eu esperava a resposta que sairia da minha própria boca. Mesmo que a história fosse nossa.

O ponteiro do meu relógio fazia um tic-tac lento, tão devagar que me fazia sentir que a qualquer segundo eu iria desmaiar e perder a mudança de cores nos tracinhos que poderiam aparecer ali. Perder o instante que mudaria tudo.

Nesses minutos, todas as promessas de mudança passaram pela minha cabeça. Se eu não me sentia segura de estar ao lado dele naquele instante tão importante da minha vida, como estava com planos de passar ela inteira ali? Não era possível. Se tudo desse certo – e naquele momento o resultado precisava dar negativo para que isso acontecesse – eu mudaria de vida amanhã mesmo. Pegar as roupas do meu armário e arrastar para dentro da mala de viagem que compramos na Espanha e voltar para a casa da minha mãe. Não quero nada, só paz. Só alguém ao meu lado que eu possa dar a mão sem medo e ainda conseguir sorrir mesmo em momentos como esse. Sorrir de mãos dadas era tudo que eu queria ali.

No fundo eu queria que o resultado acabasse no positivo, porque meu instinto materno chegou a 120km/h ao pensar que em último caso eu poderia tira-lo de mim. Isso não foi uma opção cogitada nas últimas duas semanas, mas eu sabia que ele só pensava nos gastos com a cirurgia, caso fosse realmente necessário. E isso me enjoava, me dava medo. Dele e da situação que me coloquei ao lado de um homem como ele. No fim, não me preocupei, já que não faria isso nem que precisasse estar sozinha nessa decisão. E eu estive.

Minha mão segurava aquele aparelhinho com um misto de medo e insegurança, tremendo sem parar e firmando as pontas dos dedos nos cantos para nada interferir no resultado. Eu me lembro da textura das roupas de cama que eu estava sentada, um tecido grosso com flores amarelas feitas em linha que pareciam ter vindo do brechó que eu costumava fazer compras. Aquele quarto era frio e sem cor, apesar de familiar. Eu nunca estive por muito tempo nos outros cômodos dali e não fazia questão, já que nossos momentos eram todos passados um ao lado do outro ali, sentados naquela cama vendo um filme, curtindo um ao outro enquanto discutíamos sem gritar, para não acordar quem mais estivesse na casa. Eu amava aquele cara. Mas agora as prioridades eram outras.

Quando as cores começaram a mudar no pequeno bastão branco, meu coração parou. Como num filme, eu comecei a ver tudo ao meu redor em câmera lenta. Ele rodando para a direita e para a esquerda, mexendo os pés no ar enquanto os fios de cabelo balançavam para os lados opostos. O relógio que quase não se movimentava, mas me ensurdecia a cada movida de ponteiro. O barulho da rua, com os ônibus passando pela janela no meio da tarde enquanto os cachorros do vizinho latiam na mesma velocidade que o tic-tac do relógio de pulso que herdei da minha mãe me deixavam tonta. Piscava devagar. Eu tenho certeza que meu coração parou por alguns segundos naquela tarde.

Foi aí que o segundo risco apareceu. Bem nítido, sem dúvidas do resultado. Ali, estática, eu passei as próximas 12 horas olhando sem parar para a dupla de tracinhos que mudou a minha vida. Ou pelo menos foi o tempo que eu senti passar naquele momento. Minha cabeça girava entre roupinhas de bebê, o preço dos móveis e o quanto os próximos nove meses seriam os mais fantásticos da minha vida. Um misto de alegria sem fim, medo, insegurança e raiva dele, que sequer virou para olhar enquanto eu respirava pausadamente e derrubava as primeiras lágrimas dos  olhos. Ali eu já sabia o destino do nosso relacionamento. Para eu e ele, o fim. Para eu e você, o começo. O início de uma vida inteira ao seu lado.

Esse foi o último dia que vi seu pai, filho.

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Desfoque luminoso

08/09/2013

Tinha os olhos vidrados na janela da sala. Todas aquelas luzes piscando durante a noite, tão distantes, mostravam a imensidão da cidade tão movimentada que corria por seus olhos como se estivesse indo embora as pressas. Ela só observava, maravilhada. Tão nova. Tanto ela quanto a sensação de quando estamos explorando uma nova vida feita especialmente para você. Seduz enquanto nos encurrala nas ruas sem saída.

A madrugada chegava enquanto ela continuava mergulhada naquele copo de rum sem gelo. Cada luzinha que acendia, apagava e mudava de cor se tornava uma nova história.

A festa no apartamento ao lado, com as luzes piscando e a música alta passando leve em seus ouvidos, quase como se ela pudesse sentir a vibração chegando e arrepiando seus braços que se apoiavam nos próprios joelhos magros. O carro seguido de dois taxis que atravessou a avenida acima do limite de velocidade enquanto levava um grupo de amigos para ninguém sabe onde, e quando os pneus cantaram ela sentiu que poderia simplesmente pegar um taxi e fazer o mesmo e, quem sabe, esbarrar novos amigos, encontrar novos lugares. Mas preferiu observar o grupo de garotas que atravessou a rua dançando com um guarda chuva amarelo, mesmo em pleno verão, e se encantou com a possibilidade que elas podem se tornar suas amigas num futuro próximo.

O mundo estava em festa.
O coração dela também.

Sorria enquanto circulava as unhas no copo de vidro fazendo um barulhinho ritmado. A certeza que a cidade está vivendo, piscando e dançando é reconfortante. É só dar dois, três passos e um mundo novo se abre e se transforma em nossa frente.

É como se cada luz acesa pela cidade fosse um portal. Um portal para um mundo inteiramente novo. Em um apartamento, numa festa, nas lanternas de um carro, na casa de novos amigos, flertando com possíveis amores.

As luzes assistiam televisão deitadas na sala. Ouviam o teclar de um computador no escuro do quarto. Dançavam ao som de uma música desconhecida na festa mal organizada. Cada luz trazia um conforto diferente. Era uma vida ali. Eram várias. Vivendo, dançando, criando a alma daquela cidade tão grande, solitária e, ao mesmo tempo, acolhedora. Reconfortante. Ela conseguia sentir o cheiro do movimento daquele lugar.

Observava tudo, feliz. Seus olhos mal piscavam, esperançosos, enquanto sorria de canto da boca. Estava ali, sentada na beira do sofá, ela e sua bebida, admirando todo aquele desconhecido. Aquele movimento. Aquelas vidas.

Torceu para alguém estar criando uma história para a luz que saía de sua janela e se espalhava pela cidade. Ela sorriu de canto de boca quando pensou nessa ideia, tomou o último gole e sorriu para a escuridão cheia de pontinhos coloridos que se acendiam e apagavam. Já fazia parte de tudo isso.

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O tal do in-between

08/08/2013

Eu não sei se é porque a vida anda realmente uma zona com tantas informações na internet, junto com o medo de não conseguir consumir tudo que quero, os livros que estão parados na estante, as músicas que eu ainda não escutei e os textos que eu tenho para ler nas minhas abas do navegador ou se é simplesmente mais uma daquelas crises de vinte e poucos anos que vocês não param de falar no Facebook.

Os meus sonhos pré adolescentes tomaram forma quando eu comecei a trabalhar e ver que realmente posso realizar o que eu desejo. É meio bizarro como uma rotina que talvez você nem goste tanto possa te dar a chance de viver os melhores momentos da sua vida.  Antes meus sonhos eram abstratos e viviam em murais cheios de inspirações e vontades para o futuro, hoje eles vivem num bolo de informações colados com post-its no meu cérebro para que eu respire fundo olhando para eles nos momentos de desespero.

São misturas de sonhos adolescentes usando filtros do Instagram mesclados na rotina de trabalho e vida real de um adulto.  Os sonhos chegam cada vez mais perto enquanto o dia a dia tenta engoli-los do outro lado, tentando cuspir a realidade – nem tão fiel assim – na minha cara dizendo que eu preciso parar de idealizar a vida como uma garotinha. É mais ou menos essa a mistura de sentimentos que vivem na minha cabeça.

A mistura do pensamento positivo com o negativo que senta em cada canto dos meus ombros e passa os dias discutindo Proust ao mesmo tempo que fazem planos para o futuro e brigam sem parar enquanto eu tento trabalhar. Os fones nunca cessam as vozes, mas pelo menos dão ritmo ao discurso cada hora pesando para um lado da história.

Hoje eu vivo o que muita gente  chama de “in-between”. Eu já realizei muitos sonhos, mas ainda tenho que correr atrás para realizar outros que surgem a toda hora, a cada noite, a cada leitura, a cada conversa. A vida é um desejo sem fim.
É engraçado que quando você sonha acordado, coloca os dois pés na adolescência para encher essa vontade de cores com cara de Tumblr, gifs animados e rabiscos de monstrinhos nas fotos que você ainda nem tirou. Aí abre os olhos e lembra da lista de tarefas que acumula a cada hora do dia.

E realizar sonhos dá medo. Correr atrás dos sonhos dá medo. Saber que aquilo tudo depende exclusivamente de você dá medo. Medo de esquecer algum papel e tudo isso desmoronar na sua cabeça. A gente é jogado na vida adulta já equilibrando pratos, sem saber direito onde está se enfiando, mas continua andando mesmo assim. E é desse jeito que vivemos os nossos 20 e poucos anos, enrolados no meio a contas, perguntas e sonhos.
Contas a pagar, perguntas a fazer e sonhos a realizar.

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